Análise: a violência das guerras e a importância de contar histórias

Por Daniel Medeiros* | Foto Shutterstock

A Primeira Guerra Mundial foi há cem anos. Começou em 1914 e encerrou-se em 1918. “Encerrou-se” no sentido de concluir um ciclo de tempo contínuo, pois, como sabemos, o ano de 1914 foi o pontapé de um processo de violência entre nações que só esgotou suas energias no fim do século 20, embora não seja possível ser totalmente otimista essa afirmação. Muito se falou sobre as decorrências da guerra: da falta de propósitos claros, dos milhões de mortos, dos feridos, da ascensão econômica dos EUA, da frustração e do ódio na Alemanha, do germe do nazismo, do início do desequilíbrio político no Oriente Médio etc.

Gostaria de falar de outro fenômeno da guerra, lembrado, pela primeira vez, pelo pensador alemão Walter Benjamin, em texto de 1936 chamado “O Narrador”. Benjamin afirma que a guerra foi responsável por destituir uma geração inteira da capacidade de trocar experiências por meio de narrativas. Disse o filósofo: “No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos dos campos de batalha. Não mais ricos e sim mais pobres em experiências comunicáveis”.

Repertório

O homem da terra – o camponês e o viajante – o marinheiro e o mercador –  é a principal fonte das estórias que compõem o repertório de comunicação entre as pessoas e, por meio desse repertório, vão se fixando e passando, de geração em geração, os modos de agir e as regras de interdição que caracterizam o que chamamos de cultura ou autorreferência. Essa é a razão – ou deveria ser! –  de contarmos estórias para as crianças.

A guerra emasculou uma geração inteira de jovens, privando-os do lugar necessário e do tempo fundamental para a troca de experiências por meio das narrativas. A vivência nas trincheiras foi uma não experiência; o medo diário e asfixiante não deixava espaço para registrar variantes, inversões de expectativas e desfechos surpreendentes típicos de qualquer boa estória. Não é à toa que o mais conhecido romance da primeira guerra, do alemão Erich Maria Remarque, descrevendo a rotina de horrores e sofrimentos da guerra, chamou-se Nada de novo no front.

Relatos

Primo Levi, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, e também Jorge Semprun tentaram relatar a violência desumanizadora à qual foram submetidos. Em É isto um ­Homem?, Levi busca dar contornos capazes de ser identificados pelos que não experienciaram  aquela realidade inacreditável dos campos de concentração. No entanto, título de seu livro é um sinal da dificuldade de descrever, de maneira crível, o que se passou. Semprun, no livro A escrita ou a vida, diz: “Vem-me uma dúvida sobre a possibilidade de contar. Não que a experiência vivida seja indizível. Ela foi invivível, o que é outra coisa […] Outra coisa que não se refere à forma de um relato possível, mas à sua substância. Não à sua articulação, mas à sua densidade. […]”

Hoje, como sabemos, as guerras continuam. Não em um sentido formal de “guerras mundiais”, com trincheiras ou bombas atômicas, mas a violência nas fronteiras, nos territórios ocupados, nos exercícios fundamentalistas, nas lutas de traficantes, no trânsito, na insensibilidade policial, na violência doméstica ou, simplesmente, ditada pela miséria e pelo descaso. Da mesma forma, o “invivível” desses fatos torna pouco crível seus relatos. As tentativas feitas pelos jornais e pelos programas de televisão acabam promovendo uma anestesia, uma banalização, um menoscabo que exaspera as vítimas e reforça a invisibilidade dos algozes.

Se, com Benjamin, aprendemos que: “O narrador retira da experiência o que ele conta. Sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas às experiências de seus ouvintes”, é Jorge Semprun quem afirma uma saída: “Só alcançarão essa substância, essa densidade transparente, os que souberem fazer de seu testemunho um objeto artístico, um espaço de criação. Ou de recriação. Só o artifício de um relato que se possa controlar conseguirá transmitir parcialmente a verdade do testemunho. […]”

Marca

As guerras e a violência estática que elas proporcionam podem ser enfrentadas pela formação de novas sensibilidades. E só as criações narrativas têm o condão dessa formação. Se a violência é a marca secular de nossa humanidade desenraizada, a capacidade de sensibilizar os outros – principalmente as crianças e os jovens – com a riqueza artística de um relato pode ser a maior bandeira de paz e de um futuro menos sombrio.

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor do Curso Positivo.

Revista Geografia | Ed. 67