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Meteorologia

A utilização dos ditos populares e a observação do tempo e do clima


A atual realidade escolar no Brasil demonstra que o ensino de climatologia não tem sido desenvolvido no ensino fundamental II, ou, quando ocorre, é ministrado baseado na climatologia tradicional e separativa, cujos fatores elementos do clima são analisados individualmente, retratando-se a natureza de forma estática e totalmente destituída do real


Por Diego Corrêa Maia

As nuvens baixas nas regiões tropicais não ultrapassam 2 quilômetros de altura em relação ao solo (figura 1 e tabelas 1 e 2). A família de nuvens "mais" comuns são aquelas de desenvolvimento vertical granulosas, com aparência semelhante a uma "bigorna", denominada cientificamente de Cumulonimbos (Cb) (figura 1 e tabelas 1 e 2). Esse tipo de nuvem provoca chuvas fortes, trovoadas e granizo, e convém destacar que esse tipo de nuvem é o "terror" dos aeronavegantes, atingindo grandes altitudes, chegando 6 a 10 quilômetros de extensão vertical. Da mesma família das nuvens baixas, os Cumulus são conhecidas como nuvens de "bom tempo" e se apresentam dispersas pela atmosfera (figuras 1 e tabelas 1 e 2). Também da família das nuvens baixas, têm-se as nuvens estratificadas, denominadas de Stratus (St) e o Nimbostratus (Ns), responsáveis pelos chuviscos e até neve nas regiões temperadas e glaciais (figura 1 e tabelas 1 e 2). Os Stratocumulus (Sc) são as nuvens que finalizam a família das nuvens baixas, aparentando um aspecto granuloso-estratificado que ocasionalmente é responsável pela "chuva rala" (figura 1 e tabelas 1 e 2). Presentes na baixa troposfera, geralmente formadas junto ao solo ou perto dele, têm-se as nuvens estratiformes, conhecidas como névoas e nevoeiros (figura 2). O primeiro é menos intenso e, em comparação com o segundo, possibilita mais a visão. Os nevoeiros acarretam muitos problemas aos gerenciadores de transportes rodoviários, marítimos e terrestres em virtude do perigo de acidentes.

As nuvens de média altitude estão situadas acima de 2 quilômetros e abaixo dos 7 quilômetros de altitude (figura 1 e tabelas 1 e 2). Nesse patamar da troposfera, têm-se os Altostratus (As) e Altocumulus (AC), no qual se destacam pelo formato estratificado e granuloso-estratificado, respectivamente (figura 1 e tabelas 1 e 2). Essa família de nuvens responde pelas chuvas fracas e pelas coroas lunares.

As nuvens cuja base está a mais de 7 mil metros da superfície terrestre e se enquadram na troposfera superior, conhecidas como nuvens altas (figura 1 e tabelas 1 e 2), são consideradas verdadeiros "postes de sinalização" das condições do tempo, principalmente os Cirros (Ci), com aspectos fibrosos e ondulados. Os Cirrocumulus (Cc) são nuvens altas com aparência fibrosa e granulosa. Finalizando a família das nuvens altas, temos os Cirrostratus (Cs), apresentando feições fibrosas e estratificadas, responsáveis pelos halos solares e lunares (figura 1 e tabelas 1 e 2).

O surgimento dos ditos populares
Desde o início da civilização as observações das condições atmosféricas foram utilizadas para a sobrevivência da espécie humana. Por meio da direção do vento, o caçador primitivo era conduzido a seguir seu destino, conforme relata Wolfe (1963, p. 7-8): "Se tomasse a direção exata, poderia caçar o tigre-de-sagre ou o mamute; se errasse, arriscava-se a passar um dia de fome na sua caverna".

Considerado o pai da Meteorologia, Aristóteles (nascido em 384 A.C.) foi um dos pensadores mais brilhantes de sua época, cujo pensamento alicerçou o cristianismo. Escreveu um livro que nomeou justamente de Meteorologia, cujo significado é "coisas acima da Terra". Sem o auxílio de pluviômetro, termômetro e barômetro, Aristóteles postulou explicações sobre a gênese dos fenômenos climáticos que hoje sabemos estarem equivocadas, tais como a suposição de que a origem dos ventos do Mediterrâneo estaria associada aos tremores de terra. No entanto, foi o primeiro a afirmar que a Lua e o Sol, quando estão envolvidos com um anel, indicam mudança de tempo.


Teofrasto
Filósofo grego, considerado por muitos como o único botânico da Antiguidade, nasceu por volta de 372 a.C. na ilha de Lesbos, e morreu cerca de 288 a.C. O seu verdadeiro nome seria Tirtamos, mas Aristóteles o apelidou Teofrasto, nome que significa "o que tem eloquência divina", pelo qual ficou conhecido.


A obra de Aristóteles não fez sucesso entre os agricultores, pescadores e os habitantes da Grécia, já que eles necessitavam saber sobre as condições do tempo para as próximas horas ou para o dia seguinte. A partir dessa necessidade, um jovem estudioso do tempo chamado Teofrasto, discípulo de Aristóteles, com o auxílio dos ensinamentos sobre o tempo herdados dos babilônios, escreveu um livro intitulado Livro dos Sinais. Esse livro, segundo Wolfe (1963, p. 17-18), "mencionava oito maneiras diferentes para prever a chuva, 24 para tempo limpo, 45 para ventos, cinquenta para tempestades e sete que ajudaram a prever o tempo com um ano de antecedência".

O livro de Teofrasto, por sua vez, fez sucesso entre os gregos. Assim como Aristóteles, Teofrasto também cometeu erros e acertos sobre a previsão do tempo, por meio dos seus provérbios e adágios. Um provérbio curioso de Teofrasto sobre a previsão de uma tempestade discorre sobre o comportamento do burro na previsão do tempo: "Quando um burro abana as orelhas é sinal de tempestade". Porém, Teofrasto estava correto em sua previsão sobre as condições atmosféricas quando descrevia: "Depois de um nevoeiro há poucas possibilidades de chover" (Wolfe, 1963).


Semiárido brasileiro
A região semiárida brasileira é uma das maiores, mais populosas e mais úmidas do mundo. Estende-se por 868 mil quilômetros, abrangendo o norte dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, os sertões da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e uma parte do sudeste do Maranhão. Vivem nessa região mais de 18 milhões de pessoas, sendo 8 milhões na área rural. A precipitação pluviométrica é de 750 milímetros anuais, em média. Em condições normais, chove mais de mil milímetros. Na pior das secas, chove pelo menos 200 milímetros, o suficiente para dar água de qualidade a uma família de cinco pessoas por um ano


Profetas das chuvas
No Semiárido brasileiro, mais especificamente no Estado do Ceará, existem muitos sertanejos que interpretam as manifestações da natureza para prever as condições do tempo e clima. Por meio da percepção empírica acumulada ao longo de muitas gerações, os "profetas das chuvas" - em função da vulnerabilidade do clima - criaram mecanismos para evitar o malogro de suas culturas, e assim manter as esperanças do sucesso da lavoura, perante as condições inóspitas do semiárido brasileiro. Cabe enfatizar que a utilização dos ditos populares não é intrínseca ao sertão cearense, e são utilizadas em todo território brasileiro, inclusive em outros países, cada qual com sua peculiaridade, e utilizados principalmente para prever o tempo para o dia seguinte e para as "estações" também.

Segundo Folhes e Donald, o sertanejo, por conviver em um ambiente extremamente hostil, desenvolveu uma acuidade detalhada para a observação dos fenômenos presenciados na natureza, em especial para a previsão do tempo e do clima, utilizando como referência o comportamento dos animais, o comportamento da vegetação e a posição dos astros, constelações e nuvens.

Com relação aos animais, eles observam o canto, atitude e conduta, como se pode exemplificar utilizando o comportamento das formigas, pois quando estas constroem suas casas em lugares altos e secos é indício de chuva à vista. Com relação à vegetação, esta pode ser uma rica fonte de informações para percepção da umidade relativa do ar, observada pelos agricultores do semiárido que desejam plantar sua roça, por meio da presença maciça de cocos da Macaúba e do aparecimento do milho-cobra (Dracontium asperum) e feijão - bravo (Dioclea grandiflora). No último grupo de sinais da natureza, os astros, constelação e nuvens são observados pelos sertanejos, com destaque para os ditos que associam o clima da próxima estação pela observação da Lua. Conforme os sertanejos, a estação vai ser chuvosa quando a primeira lua cheia de janeiro "sair vermelha, por detrás de uma barra de nuvens", mas "se surgir prateada é sinal de seca" (Folhes; Donald, 2007, p. 27).

 

 

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