Investimentos no Brasil por meio de mecanismos de finanças sociais podem chegar a R$ 50 bilhões em 2020

Texto Edgar Melo | Foto Shutterstock

Estudo realizado pela Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais, em parceria com a Deloitte, revela que o Brasil investiu R$ 13 bilhões em atividades de impacto social com sustentabilidade  financeira em 2014. Para os próximos anos, o montante pode ser até quatro vezes maior do que o investido no ano passado. Levantamento semelhante feito pelos países do G7 mostra que existe, no mundo, pelo menos US$ 1 trilhão em recursos privados que poderiam ser liberados de seus investimentos tradicionais e redirecionados a negócios de impacto que vinculam retornos  financeiros a benefícios sociais. O Brasil investiu R$ 13 bilhões em 2014, por meio de mecanismos de finanças sociais, ou seja, recursos públicos e privados que viabilizam atividades as quais produzem impacto social com sustentabilidade financeira. Esse valor equivale a 3% do total de recursos disponíveis para o campo social em todo o País no ano, mas tem potencial para chegar a R$ 50 bilhões em 2020. A projeção de crescimento consta no estudo sobre a oferta de capital para finanças sociais realizado pela Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais, em parceria com a Deloitte, uma das maiores consultorias e auditorias do mundo. O objetivo do estudo foi mapear recursos  financeiros existentes que podem potencialmente ser aplicados em finanças sociais. A análise incluiu também o cenário regulatório para esses recursos dialogarem com leis que apoiem esse tipo de investimento.

CONHEÇA
A Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais (http://forcatarefanancassociais.org.br/) foi lançada em maio de 2014, com o objetivo de ampliar o capital privado e público disponível para alavancar organizações e negócios de impacto, baseados em modelos inovadores e escaláveis, capazes de resolver problemas sociais, ao mesmo tempo em que apresentam resultado financeiro positivo. Os membros da Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais são André Degenszajn; Antônio Ermírio de Moraes Neto; Ary Oswaldo Mattos Filho; Fabio Barbosa; Guilherme Afonso Ferreira; Luiz Lara; Maria Alice Setúbal; Pedro Parente; e Vera Cordeiro. A governança da Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais é formada por representantes de diferentes setores engajados no avanço desse campo no País, uma diretoria executiva integrada pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e pela Sitawi Finanças do Bem, um Comitê Estratégico representado pela Deloitte e pela Fundação Telefônica, e um Grupo de Apoio Contínuo (GAC) com 60 membros.

FINANÇAS SOCIAIS EM ALTA
A inspiração da Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais vem de outras forças-tarefas globais. A iniciativa começou na Inglaterra, em 2000. Depois, surgiram forças-tarefas no Canadá e nos Estados Unidos e, em 2013, foi lançada a força-tarefa dos países do G8, quando a Inglaterra exercia a presidência do encontro do G8. Esta força-tarefa do G8 gerou forças-tarefas em seus próprios países, com respectivas recomendações e grupos transversais, como o de avaliação de impacto, com recomendações a todos os países membros. Coordenada por Sir Ronald Cohen, uma das principais lideranças mundiais no assunto, a Força Tarefa do G8 divulgou, em 2014, um relatório intitulado “Investimento de Impacto: o coração invisível dos mercados – aproveitando o poder do empreendedorismo, da inovação e do capital para o bem público”. O relatório revelou que há cerca de US$ 1 trilhão em recursos que podem ser redirecionados à solução de problemas da população mundial (mais informações em: www.socialimpactinvestment.org). Em 2014, Brasil, Portugal, Israel e Índia criaram suas forças-tarefas e começaram a gerar recomendações vindas de países que já contam com modelos de negócios focados na melhoria de vida das comunidades de baixa renda e que poderiam atrair parte desse capital.

AÇÕES
Entretanto, para que esses recursos potencialmente disponíveis sejam viabilizados, é preciso cada vez mais o envolvimento de governos, empreendedores, empresários, investidores e de organizações da sociedade civil, entre outros, na implementação de uma ampla agenda de mudanças. “É preciso, sobretudo, mudar o modelo mental, ao fazer negócios e  financiar iniciativas sociais de ‘impacto social versus retorno financeiro’ para ‘impacto social e sustentabilidade  financeira’”, afirma Pedro Parente, um dos membros da Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais.

A FORÇA DOS NEGÓCIOS DE IMPACTO SOCIAL
O elo entre todas as forças-tarefas globais está na certeza de que governos, setor  financeiro, investidores, empresas e instituições podem fazer mais para facilitar o caminho de investimentos que vinculam retornos financeiros a benefícios sociais. O pilar para a construção desse novo modelo está nos negócios de impacto social, empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental, ao mesmo tempo em que produzem resultado  financeiro positivo de forma sustentável. Os negócios de impacto social oferecem soluções inovadoras, escaláveis, para problemas sociais da população de baixa renda. Portanto, quanto maior a possibilidade de investimento via mecanismos de  finanças sociais, maiores as possibilidades de enfrentamento das questões sociais.
“A cada dia, surgem, no Brasil, novos negócios de impacto e novas áreas são incorporadas, em função da criatividade de empreendedores e do apoio de seus  financiadores e aceleradores. Diante de tantas oportunidades, é essencial criar e disseminar conceitos claros sobre o campo, articular atores estratégicos e priorizar as ações de forma a acelerar o crescimento dos recursos para  finanças e negócios de impacto social no país”, afirma Célia Cruz, diretora-executiva do ICE, que, em parceria com a Sitawi, compõe a diretoria executiva da Força Tarefa Brasileira de Finanças Sociais.

O Brasil tem um mercado em franca expansão para negócios de impacto social, especialmente nas áreas de educação e saúde, entre outras razões, porque 85% da população é formada pelas classes C, D e E. São inúmeras as questões que os negócios de impacto podem ajudar a resolver. Na área da Educação, há muitas oportunidades, em NEGÓCIOS DE IMPACTO virtude da carência de oferta para os grupos de baixa renda e de restrições regulatórias. Na área da Saúde, o mercado potencial também é muito amplo, em várias frentes, como acesso à informação, cuidados pessoais, serviços de emergência, entre outras. “Boa parte dos mecanismos de  finanças sociais vem do microcrédito e do governo, mas nós acreditamos que é possível ampliar essa oferta a partir de um leque maior e melhor de opções, do fortalecimento dos organismos intermediários e de um ambiente legal e regulatório mais favorável e criativo”, afirma Leonardo Letelier, CEO da Sitawi. “Precisamos fortalecer um pipeline com muitos negócios de impacto qualificados, com mensuração de resultado, escaláveis e prontos para receber investimento”, destaca. Já para Heloisa Montes, da Deloitte: “As exigências da sociedade aumentaram, porém, os governos não têm como acompanhar o ritmo de crescimento da demanda. É muito difícil, por uma série de razões, inclusive financeiras, dar os passos no ritmo que a sociedade pede e precisa”, destaca. “Nesse ponto, é importante o avanço dos mecanismos de  finanças sociais, para melhor guiar ações de impacto na sociedade.”

FINANÇAS SOCIAIS
Finanças sociais são recursos privados e públicos para investimento em atividades que objetivam produzir impacto social com sustentabilidade financeira. Elas utilizam instrumentos  financeiros novos e existentes para viabilizar a alocação desse capital, com possibilidade de retorno financeiro sobre o capital investido. O impacto deve ser mensurado e analisado periodicamente. O retorno deve ser apropriável e gerenciável pelo empreendimento; o capital originalmente investido e seus rendimentos podem ou não ser restituídos ao investidor. Negócios de impacto são empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental, ao mesmo tempo em que geram resultado  financeiro positivo de forma sustentável. A Força Tarefa de Finanças Sociais trabalhou com diversas organizações na construção de uma Carta de Princípios para os negócios de impacto, como forma de estabelecer alguns parâmetros de atuação no Brasil. Esses parâmetros são: propósito de gerar impacto socioambiental positivo explícito na sua missão; conhecer, mensurar e avaliar seu impacto periodicamente; ter uma lógica econômica que permite gerar algum tipo de receita própria; apresentar governança que leve em consideração os interesses de investidores, clientes e comunidade.

Revista Geografia | Ed. 65